14/11/1997 (sexta feira)


Curitiba, catorze de novembro de mil novecentos e noventa e sete. Mais precisamente uma manhã de sol no ambiente da dor (pronto socorro). Ali começava meus primeiros passos nesta trajetória de onze anos completados “hoje” e pra quem gosta de coincidência, lá vai, “era sexta feira também”. Lembro de um dizer meu sobre ser provisório e assim segue o transitório que passa dia após dia e continuo a somar noites e mais noites de trabalho. Nas minhas contas ultrapassei a marca de mil noites longe do lar e do descanso necessário para a mente e o corpo, observando os mais diversos dramas na busca da solução imediata. Pelo menos é isso que se espera de um pronto socorro “ser imediato”. Também os dias de comemoração de fim de ano, mais de sete natais de serviço e na mesma dose a mudança do ano velho para o novo, passei longe dos familiares. Estranho, pelo menos pra mim, dizer ano velho para o ano novo, pois são algumas horas que limitam o encontro de ambos, mas na verdade são horas terríveis de muita dor e angustia. Enquanto muitos festejam, outros tantos lamentam a perda de um ente querido pela violência urbana ou até mesmo pela solidão que martela sua mente a pedir um desfecho para a maravilha que é “viver”. Com certeza este ambiente é o que mais testa o individuo diante da sua índole e crenças. Morre mais do que vive e perdi a conta dos inúmeros procedimentos de emergência que presenciei e os óbitos com requinte de violência e crueldade que um a um hoje na minha mente são centenas. Foram toracotomias (abertura da cavidade torácica), drenos, entubamentos (tubo na traquéia para facilitar a respiração), massagens cardíacas... Enfim procedimentos de peso onde o corpo inerte é simplesmente “nada”. Meu primeiro dia quase desmaiei depois de presenciar uma fratura exposta de perna, aonde o motoqueiro iria se submeter a uma amputação , devido a gravidade do acidente. Lembro da moça que me treinava na confecção das fichas de atendimento dos pacientes dizendo: - Se quer o emprego vai se acostumando! E desde então fui me habituando. Nunca me passou pela mente que aquilo era o mínimo a ser visto diante das inúmeras mutilações que se somaram noite após noite. Algumas marcam até hoje na lembrança e superar isto nunca foi tarefa fácil. Tinha mais um obstáculo a superar que era o dia, pois aos poucos troquei quase que literalmente o dia pela noite, porque no princípio foram apenas dois dias de treinamento diurno e então fui remanejado para o turno da noite para suprir a carência de pessoal. Hoje consegui superar um pouco este desequilíbrio e o dia claro e imponente de sol, não me incomoda tanto. DEUS é minha estrela guia e minha família meu chão firme. O trecho do texto FORTELZA é claro quando o assunto é pronto socorro, pois palavra é... e o designado para atender e fazer jus a vida é um...que luta apenas pelo...Muitas maneiras busco para minha fuga da energia ruim que trago para meu lar e a muito custo consegui separar isto do meu dia a dia longe do trabalho. Talvez a maioria ache que tolerar isto diante da leitura que segue é um sofrimento vão, e cessar isto é fácil “mude de ambiente”. Todos os dias bato de frente com esta questão e no fim se torna mais um dia a chegar ou melhor uma noite a começar. Sei que o crescimento foi sofrido e continua sendo, mas depois de alguns anos entendi que se tornou uma maneira interessante de analisar a trajetória dos inúmeros colegas que se perderam pelo caminho. Digo isto porque o caminho se divide da seguinte maneira. Ou você se torna um individuo fechado, individualista e frio, ou você se torna um individuo compassivo, hospitaleiro e receptivo. Não há outros caminhos além destes! É um ambiente de guerra! É uma batalha insana de uma conquista de terras inexistentes e riquezas surrealistas!Pra fechar este trecho comento apenas uma marca, ou melhor, duas entre viver e morrer. 1ª marca - Era quase cinco horas da madrugada gelada de um dia de junho que não me recordo o ano e uma viatura da PMPR (Policia Militar do Paraná) chegou a todo o vapor e após a frenagem adentrou com um recém nato vivo que encontraram numa lixeira. Foi algo alucinante e pela primeira vez senti vida surgir no contato de todos com o que presenciava no ambiente da dor. A genitora era uma incógnita, mas o ato heróico dos policiais me emocionou... 2 ª marca - Era quase 23h11min de uma noite de verão e mesmo no atropelo dos ponteiros do relógio adiantado pela praga do horário de verão (horário de verão para pronto socorro é kaos) mais uma noite se somava e apenas tenho o registro do fato sem lembrar-se novamente do ano da cena terrível que iria presenciar. Desta vez não foi a PMPR que trouxe a suicida compulsiva que já tinha vários registros de atendimento no ambiente da dor. No relato dos familiares era a quinta ou sexta vez que tentava contra a própria vida e pra piorar era gestante de quatro meses. Encontraram-na desmaiada já fazia horas e então chegou ao ambiente da dor. Juntamente com os diversos medicamentos que ingerira, tinha veneno de rato e bebida alcoólica. Já não tinha mais o que fazer e cada um que estava presente naquela noite viram uma vida lutar contra a morte sem chances, pois era o feto que se agitava e mexia se numa luta alucinante para sair. Hoje isto me lembra um texto de um grande amigo que se chama “A GRANDE EXPECTATIVA”. As lagrimas se multiplicavam e cada um naquela noite sentiu se inútil e com as mãos amarradas a apenas presenciar a morte chegar mais uma vez...



Sei que o canal aberto para comentários ira questionar o porquê da falta de comemoração, pois hoje é aniversario de serviço. Mas mesmo diante do peso do texto quero deixar claro que estou comemorando e muito, pois estas pinceladas que dou em alguns fatos verídicos me trouxeram a fé, a verdade e o apego forte ao dia a dia a seguir e partilhar o que há de mais precioso nesta existência “VIVER”...



DEUS ABENÇOE SEMPRE TODOS QUE SEGUEM CADA QUAL SUA TRAJETORIA DIANTE DO SEU DIA A DIA...



Comentários

  1. Joh... Pelo pouco que te conheço, espero que você tenha marcado bem o dia em que realmente nos tornamos Amigos (com A maíusculo, da primeira letra do meu nome e da Maravilhosa Palavra). Hoje, bastam apenas poucas linhas para entender seu sentimento em palavras expressas, sentimentos escritos, uma vida (dolorosamente) vivida no "ambiente da dor".

    A vida é o único bem que "possuimos", já pensou nisso? Acho que sim... Se a morte que te ronda todos os dias e espreita a cada um diariamente (embora finjamos não perceber) ainda te espanta, me espanta mais ainda sua capacidade de, quando esquecendo de tudo isso, me dá sua amizade e carinho (quase) todos os dias nesse "ambiente do alegria" - o mundo virtual em que compartilhamos nossas experiências.

    Hoje uma das fundadoras do Clube das Gerais - onde eu faço meu curso de patchwork - me disse uma coisa que vou levar comigo para o resto da vida e que talvez lhe sirva também:

    "AME COMO SE NUNCA TIVESSE SE MACHUCADO, DANÇE COMO SE NINGUÉM ESTIVESSE OLHANDO E TRABALHE COMO SE NÃO PRECISASSE GANHAR DINHEIRO".

    Consegue ver o que perpassa todas as assertivas? Eu vejo o DESAPEGO e o DESTEMOR necessários para vivermos o dia a dia - em qualquer ambiente: o da dor ou o da alegria!

    Uma boa sexta e um excelente fim de semana com a família - que é o seu chão!

    Beijos da Amiga

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  2. Amigo....só posso dizer que apesar de tanta dor,o texto é lindo e muito bem escrito.Traçou um paralelo entre a vida e a morte...a noite e o dia...o teu dia a dia....a superação...e ainda comemorou o aniversário de trabalho nesse ambiente de tanta dor.Pode parecer estranho mas meus parabéns!!!
    Ana Andrade ou Anin....

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